Liberdade é alvo de hostilidade global

Inspirado em grande medida pelos governos das duas maiores potências econômicas, China e Estados Unidos, um clima de ódio à liberdade de expressão, em particular ao jornalismo independente, está se espraiando de modo inédito por quase todo o mundo.

Por Carlos Eduardo Lins da Silva no Observatório da Imprensa

O mais recente índice de liberdade de imprensa da organização Repórteres Sem Fronteiras mostra apenas 17 nações, entre 180 examinadas, em que a garantia ao exercício da profissão é plena, ou quase. O relatório revela que mesmo em países nórdicos, como Noruega e Suécia, que lideram a lista, têm sido registrados ataques a jornalistas ou veículos de comunicação por parte de políticos ou organizações, com variados níveis de agressividade.

O Brasil aparece em 102º lugar, com a legenda “mais inseguro do que nunca”. O relatório destaca no país ataques físicos contra repórteres em manifestações de rua, assassinatos, impunidade generalizada e ameaças à confidencialidade de fontes.

As últimas colocações estão com Coreia do Norte, Eritreia, Turquestão, Síria e China, mas isso não representa novidade. O assustador é que a situação se degrada em sociedades que até pouco tempo atrás eram consideradas democracias elogiáveis.

As agressões verbais e ameaças a jornalistas na França, por exemplo, chegaram ao seu ápice na polarizada campanha eleitoral de 2017, e a levaram ao 33º lugar no índice.

Em países onde líderes populistas e autoritários chegaram ao governo ou ampliaram sua margem de poder, como Áustria, Itália, Hungria, Polônia, Filipinas e Turquia, as coisas vêm se agravando muito e rapidamente.

A China está se especializando em exportar tecnologia de vigilância para controlar atividades de cidadãos que se opõem ao governo e principalmente jornalistas.

Tal expertise chinesa já está sendo usada por Tailândia, Vietnã, Sri Lanka, Irã, Zâmbia, Zimbábue. Os Estados Unidos, que caíram dois pontos na tabela (estão agora em 45° lugar), são um caso à parte, porque até 2016, apesar de seus próprios problemas com a liberdade de expressão nunca terem sido pequenos, seu governo costumava denunciar situações mais graves no mundo.

Na administração de Donald Trump, Washington deixou de se preocupar com violações de direitos humanos, mesmo as mais ostensivas, por parte dos outros, e vem cometendo as suas próprias em escala crescente, como o aprisionamento de crianças filhas de imigrantes que entraram ilegalmente no país.

Especificamente em relação à imprensa independente, Trump vem movendo campanha de ódio sem precedentes. O nível retórico de ofensas, injúrias, calúnias contra veículos e jornalistas que não o adulam não para de crescer.

O presidente passou a incitar seguidores a insultar com gritos, gestos obscenos e cartazes os profissionais desses veículos em comícios, o que às vezes inviabiliza o seu trabalho. Como a maioria dos fãs de Trump é também adepta do uso de armas, não é improvável que algum dia essa hostilidade se transforme em tragédia. Em junho, um homem armado invadiu a redação do Capital Gazette, em Annapolis, e matou cinco pessoas. A motivação do assassino não foi política ou partidária.

Aparentemente desequilibrado mental, o invasor não gostou do que o jornal escreveu a respeito dele anos atrás. Não se pode atribuir a Trump ou seus aliados esses homicídios, mas o clima de intolerância a informações veiculadas pode ter contribuído para a decisão do criminoso em agir.

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